luz. ou sombra.
"… São dores de gente feliz ou dores de gente que vive e se queixa. As minhas são de quem se encontra encarcerado da vida, aparte…
Entre mim e a vida…
De modo que tudo o que me angustia, vejo. E tudo o que me alegra, não sinto. E reparei que o mal mais se vê que se sente, a alegria mais se sente do que se vê. Porque não pensando, não vendo, certo contentamento adquire-se, como o dos mysticos e dos bohemios e dos canalhas. Mas todo o mal entra [em] casa pela janella da observação e pela porta do pensamento.
De resto eu não sonho, eu não vivo. Sonho a vida real. Todas as naus são naus de sonho, logo que esteja em nós o poder de as sonhar. O que mata o sonhador é não viver quando sonha; o que fere o agente é não sonhar quando vive. Eu fundi n’uma côr una felicidade a belleza do sonho e a realidade da vida. Por mais que possuamos um sonho nunca se possue um sonho tanto como se possue o lenço que se tem na algibeira, ou, se quizermos, como se possue a nossa própria carne. Por mais que se viva a vida em plena e desanimada e turbulenta acção, nunca desaparecem o <> do contacto com outros, o tropeçar em obstaculos, ainda que minimos, o sentir o tempo decorrer.
Matar o sonho é matar-mo-nos. É mutilar a nossa alma. O sonho é o que temos de realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso.
O Universo, a Vida - seja isso real ou ilusão - é de todos, todos podem vêr o que eu vejo, e possuir o que eu possuo - ou pelo menos, podem conceber-se vendo-o e passando e isso é <>
Mas o que eu sonho ninguém pode vêr senão eu, ninguem a não ser eu possuir. E se do mundo exterior o meu vel-o differe de como outros o veem, isso vem de que do sonho meu eu ponho em vel-o sem querer, do que do sonho meu se colla a meus olhos e ouvidos.”

Vicente Guedes

"… São dores de gente feliz ou dores de gente que vive e se queixa. As minhas são de quem se encontra encarcerado da vida, aparte…

Entre mim e a vida…

De modo que tudo o que me angustia, vejo. E tudo o que me alegra, não sinto. E reparei que o mal mais se vê que se sente, a alegria mais se sente do que se vê. Porque não pensando, não vendo, certo contentamento adquire-se, como o dos mysticos e dos bohemios e dos canalhas. Mas todo o mal entra [em] casa pela janella da observação e pela porta do pensamento.

De resto eu não sonho, eu não vivo. Sonho a vida real. Todas as naus são naus de sonho, logo que esteja em nós o poder de as sonhar. O que mata o sonhador é não viver quando sonha; o que fere o agente é não sonhar quando vive. Eu fundi n’uma côr una felicidade a belleza do sonho e a realidade da vida. Por mais que possuamos um sonho nunca se possue um sonho tanto como se possue o lenço que se tem na algibeira, ou, se quizermos, como se possue a nossa própria carne. Por mais que se viva a vida em plena e desanimada e turbulenta acção, nunca desaparecem o <> do contacto com outros, o tropeçar em obstaculos, ainda que minimos, o sentir o tempo decorrer.

Matar o sonho é matar-mo-nos. É mutilar a nossa alma. O sonho é o que temos de realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso.

O Universo, a Vida - seja isso real ou ilusão - é de todos, todos podem vêr o que eu vejo, e possuir o que eu possuo - ou pelo menos, podem conceber-se vendo-o e passando e isso é <>

Mas o que eu sonho ninguém pode vêr senão eu, ninguem a não ser eu possuir. E se do mundo exterior o meu vel-o differe de como outros o veem, isso vem de que do sonho meu eu ponho em vel-o sem querer, do que do sonho meu se colla a meus olhos e ouvidos.”

Vicente Guedes

Nasci em uma cidade que nem sempre dá pra ver o céu.
Mas gosto quando a luz entra de mansinho pelas frestas da janela, mesmo que lá fora nem sempre dê pra ver o céu. A luz me obrigando a abrir as pálpebras já me basta pela manhã. Prefiro a luz ao despertador, mesmo que a canção seja suave.
Termino de abrir as cortinas, mas nem sempre dá pra ver o céu.
Me acostumei assim. Já nem penso mais se existe algum lugar do mundo onde sempre dê pra ver o céu, como eu fazia antigamente. Penso que se as vezes o céu se esconde, mesmo que seja somente a meu ver, deve haver uma razão pra olhar só para dentro de vez em quando.
E foi assim que criei essa mania de imaginar um céu mais perto de mim. Pra que mesmo quando eu tiver de olhar só pra dentro, sempre exista aqui um pedacinho de céu. Não foi fácil. Um trabalho árduo de cerca de quatro anos, mas tenho meu próprio céu.
Mas agora com a vida sendo apenas a vida, com esse fluxo incessante que carrega junto com seu nome, trilhando caminhos que não imaginei. Sendo algo além do tempo, que segue além e independente de pra onde aponta o vento, que segue além de qualquer céu, chuva, nuvens ou fumaça. Ou as vezes até sendo o próprio tempo em si. Andando quieto, sem nem avisar que anda. Voando baixo, sem nem avisar que passa correndo. Com essa vida que segue além de mim mesma, penso que talvez meu céu já não baste pra imensidão que há aqui. Digo sempre que tenho uma multidão dentro de mim. Um pede pra ir embora, e outro pede pra ficar. E meu céu observa a todos sem saber se ainda basta. Ou se a vida, se o tempo, se eu mesma guardei, sem querer, algo além disso.
Tenho confundido o céu e o mar.
Já não sei o que são meus pés no chão e o que é minha cabeça querendo alcançar algum outro lugar, querendo navegar até além do mar. Já não sei o que assisto todo dia e o que me busca quando não posso mais ditar meus passos. Já não sei o que é a luz nos olhos e o que são as pálpebras escolhendo se fechar e olhar pra dentro.
Veja bem, os ombros carregam ainda o peso desses quatro anos que demorei pra chegar até aqui. E esse peso não vai embora. Meus ombros carregam ainda o peso de um mundo onde quase nunca dá pra ver o céu. A diferença é que agora eu conheço muito melhor esse mundo. Não o mundo inteiro. Mas o meu mundo. Os olhos se enchem e os joelhos dóem cada dia menos.
Guardo um lugar em mim. Que hoje em dia já não tem mais céu que baste, que o tempo não alcança e onde as memórias não falam. Tenho certeza que meu coração habita um lugar diferente do mundo que eu vivo.
E penso que mesmo que meus pés afundem nesse poço de lama que fica nesse lugar que não é o mesmo em que habita meu coração. E ainda que eu caia cada dia mais depressa nas bocas da madrugada escura dessa cidade cinza. Ainda que meus braços entrelaçados na sua cintura não bastem para te manter perto, e eu encontre meu corpo cada dia mais abandonado no abismo escuro que existe dentro de cada um de nós. E mesmo que as estradas para fuga estejam todas bloqueadas e qualquer outro destino acabe por me levar sempre ao mesmo lugar. Ainda que o peito arda em chamas, e as cinzas não sejam capazes de fazer renascer qualquer coisa que sobre. Ainda que minhas mãos estejam pesadas, e o mundo insista em subir em meus ombros. Mesmo que as pernas tenham cansado de caminhar sem rumo aparente. Ainda que eu me encontre naufragada em um oceano qualquer, e tenha desaprendido o jeito de voltar a praia&#8230;
Lembro que, cada dia que passa, os joelhos dóem menos.

E o céu já nem importa mais.

Nasci em uma cidade que nem sempre dá pra ver o céu.

Mas gosto quando a luz entra de mansinho pelas frestas da janela, mesmo que lá fora nem sempre dê pra ver o céu. A luz me obrigando a abrir as pálpebras já me basta pela manhã. Prefiro a luz ao despertador, mesmo que a canção seja suave.

Termino de abrir as cortinas, mas nem sempre dá pra ver o céu.

Me acostumei assim. Já nem penso mais se existe algum lugar do mundo onde sempre dê pra ver o céu, como eu fazia antigamente. Penso que se as vezes o céu se esconde, mesmo que seja somente a meu ver, deve haver uma razão pra olhar só para dentro de vez em quando.

E foi assim que criei essa mania de imaginar um céu mais perto de mim. Pra que mesmo quando eu tiver de olhar só pra dentro, sempre exista aqui um pedacinho de céu. Não foi fácil. Um trabalho árduo de cerca de quatro anos, mas tenho meu próprio céu.

Mas agora com a vida sendo apenas a vida, com esse fluxo incessante que carrega junto com seu nome, trilhando caminhos que não imaginei. Sendo algo além do tempo, que segue além e independente de pra onde aponta o vento, que segue além de qualquer céu, chuva, nuvens ou fumaça. Ou as vezes até sendo o próprio tempo em si. Andando quieto, sem nem avisar que anda. Voando baixo, sem nem avisar que passa correndo. Com essa vida que segue além de mim mesma, penso que talvez meu céu já não baste pra imensidão que há aqui. Digo sempre que tenho uma multidão dentro de mim. Um pede pra ir embora, e outro pede pra ficar. E meu céu observa a todos sem saber se ainda basta. Ou se a vida, se o tempo, se eu mesma guardei, sem querer, algo além disso.

Tenho confundido o céu e o mar.

Já não sei o que são meus pés no chão e o que é minha cabeça querendo alcançar algum outro lugar, querendo navegar até além do mar. Já não sei o que assisto todo dia e o que me busca quando não posso mais ditar meus passos. Já não sei o que é a luz nos olhos e o que são as pálpebras escolhendo se fechar e olhar pra dentro.

Veja bem, os ombros carregam ainda o peso desses quatro anos que demorei pra chegar até aqui. E esse peso não vai embora. Meus ombros carregam ainda o peso de um mundo onde quase nunca dá pra ver o céu. A diferença é que agora eu conheço muito melhor esse mundo. Não o mundo inteiro. Mas o meu mundo. Os olhos se enchem e os joelhos dóem cada dia menos.

Guardo um lugar em mim. Que hoje em dia já não tem mais céu que baste, que o tempo não alcança e onde as memórias não falam. Tenho certeza que meu coração habita um lugar diferente do mundo que eu vivo.

E penso que mesmo que meus pés afundem nesse poço de lama que fica nesse lugar que não é o mesmo em que habita meu coração. E ainda que eu caia cada dia mais depressa nas bocas da madrugada escura dessa cidade cinza. Ainda que meus braços entrelaçados na sua cintura não bastem para te manter perto, e eu encontre meu corpo cada dia mais abandonado no abismo escuro que existe dentro de cada um de nós. E mesmo que as estradas para fuga estejam todas bloqueadas e qualquer outro destino acabe por me levar sempre ao mesmo lugar. Ainda que o peito arda em chamas, e as cinzas não sejam capazes de fazer renascer qualquer coisa que sobre. Ainda que minhas mãos estejam pesadas, e o mundo insista em subir em meus ombros. Mesmo que as pernas tenham cansado de caminhar sem rumo aparente. Ainda que eu me encontre naufragada em um oceano qualquer, e tenha desaprendido o jeito de voltar a praia…

Lembro que, cada dia que passa, os joelhos dóem menos.

E o céu já nem importa mais.

Berliner Mauer

Berliner Mauer

The Making of Lady and the Tramp (1955)

Olho os cachorros na ruaLeio sobre um novo satélite na luaPedalo, meu corpo suaTe chamo e a madrugada recua.Te olho. Amanheceu.Vejo o sol nascer em um tom de amarelo&#8230; e saio pra rua só chinelo.Escolho a vida como se não houvesse opçãoE na verdade não há quando se ouve o coraçãoTe olho. Anoiteceu.Olho à noite tua pele nuaAtravés da sombra, pra além do breu.Me sinto cada vez mais tuaSou cada vez mais eu.

Olho os cachorros na rua
Leio sobre um novo satélite na lua
Pedalo, meu corpo sua
Te chamo e a madrugada recua.

Te olho. Amanheceu.

Vejo o sol nascer em um tom de amarelo
… e saio pra rua só chinelo.
Escolho a vida como se não houvesse opção
E na verdade não há quando se ouve o coração

Te olho. Anoiteceu.

Olho à noite tua pele nua
Através da sombra, pra além do breu.
Me sinto cada vez mais tua
Sou cada vez mais eu.